São Carlos, cidade dos doutores e pólo tecnológico em expansão.
As universidades do município produzem uma tese a cada grupo de 609 habitantes; concentração de doutores supera a de São Paulo.
Graças a um pólo tecnológico em expansão e à expressiva produção acadêmica de suas duas grandes universidades públicas, São Carlos, no interior paulista, consolida-se a cada ano como a "cidade dos doutores" no Brasil.
Segundo dados mais recentes dos campi locais da USP (Universidade de São Paulo) e da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), foram defendidas 346 teses de doutorado em 2003. Em 2002, foram 315; e, em 2001, 245.
Considerando-se só as teses de 2003, São Carlos ostenta uma média de um doutor para cada 609 habitantes, de acordo com estimativa do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) que aponta que o município possui 210.841 moradores.
Comparando-se estes números com: a cidade de São Paulo, por exemplo, toda a produção da USP, excetuando-se o campus de São Carlos, gerou em 2003 um doutor por 5.500 habitantes; a UFSC (Federal de Santa Catarina) teve um doutor por 1.800 habitantes de Florianópolis; a UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) produziu um doutor para 9.800 moradores de Recife; e a UnB (Universidade de Brasília), um doutor a cada 13 mil moradores do Distrito Federal.
Deve-se considerar, também, que estas cidades citadas abrigam outras universidades conceituadas, sejam públicas ou particulares, e as teses produzidas nestas devem ser somadas. No entanto, São Paulo precisaria ter dez vezes a produção da USP (1.971 teses em 2003, somando aí os campi da capital, de Ribeirão Preto, Pirassununga e Piracicaba) para bater a concentração de doutores de São Carlos. Seriam necessárias pelo menos mais duas federais em Florianópolis; mais 15 UFPE, no Recife; e mais 20 UnB em Brasília.
Concentração de doutores ainda maior
"Isso sem contar o (número de doutores) acumulado nos anos anteriores que permanecem nas universidades ou são absorvidos pelas indústrias, pela prefeitura, centros de pesquisa e pelo agronegócio na região", afirma o coordenador de Relações Institucionais da prefeitura de São Carlos, Yashiro Yamamoto, 60, pesquisador na USP e doutor em Física.
Segundo Yamamoto, que coordenou levantamento em 2001, somando-se todos os doutores residentes, São Carlos teria um morador com tal formação a cada 200 habitantes. Até o prefeito Newton Lima Neto é doutor. Engenheiro de produção, especializou-se em políticas públicas e foi reitor da UFSCar.
Localiza em uma região rica do estado, a 230 quilômetros de São Paulo e a 110 quilômetros de Ribeirão Preto, São Carlos se transformou em pólo de tecnologia, com pesquisa de ponta em Agropecuária, Saneamento, Habitação, Metal-mecânica, Química, Ótica, Laser e Eletro-eletrônica. A cidade ainda abriga a mais antiga incubadora de empresas do país, o Parqtec (Parque de Alta Tecnologia de São Carlos), e atraiu as gigantes Alcoa (empresa canadense, maior produtora de alumínio do mundo) e Tecumseh (companhia americana, líder mundial em compressores para refrigeração e ar condicionado).
A Tecumseh emprega 6.200 pessoas e fabrica em São Carlos 10% de sua produção global. A Alcoa montou, em parceria com a UFSCar, um prédio inteiro dedicado à pesquisa de novos materiais.
Também têm instalações na cidade a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), a TAM, a Volkswagen e a Faber Castell, entre outras.
Mão-de-obra especializada não falta. Juntas, USP e UFSCar mantêm mais de 8.600 alunos matriculados em todos os níveis e oferecem 34 programas de pós-graduação, 30 deles com cursos de doutorado. Cinco têm nota máxima na avaliação da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), do Ministério da Educação: o de Ciência e Engenharia dos Materiais e o de Química, na federal; e ainda Física, Físico-química e Engenharia Hidráulica e Saneamento, na estadual.
Pólo internacional
Reconhecida internacionalmente por sua vocação científica, a cidade de São Carlos coordena desde 2003 a unidade temática de Ciência, Tecnologia e Capacitação da Rede de Mercocidades, que reúne 138 municípios de Brasil, Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia. A excelência fez de São Carlos uma exceção na rede que, de forma inédita, entregou a coordenação de um grupo temático a um município com menos de 400 mil habitantes.
Em dezembro, São Carlos sediará a 2ª Mostra de Ações de Ciências e Tecnologia em Políticas Públicas Municipais. Na primeira mostra, no ano passado, a prefeitura apresentou 70 projetos implantados em parceria com outras instituições do governo, universidades e iniciativa privada, como a fossa séptica rural e o mapa da pobreza. A fossa séptica rural foi desenvolvida por pesquisadores da Embrapa Instrumentação Agropecuária. A nova tecnologia reúne um sistema de três caixas d´água coletoras de dejetos que evitam a contaminação do lençol freático provocada pela fossa tradicional e, sob tratamento químico natural, transformam o esgoto em adubo orgânico.
Desenvolvido por pesquisadores da UFSCar, o Mapa da Pobreza é atualizado anualmente e se transformou no mais minucioso instrumento da prefeitura de São Carlos para identificar bolsões de miséria, localizar e cadastrar as famílias mais carentes nos programas federais de distribuição de renda.
Outro exemplo de iniciativa viabilizada por uma parceira é a criação da Faculdade de Medicina na UFSCar. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve na cidade em março passado e anunciou o novo curso com previsão de vagas já para o próximo vestibular. Simultaneamente, a prefeitura vem construindo o hospital escola com capacidade para 200 leitos.
Ainda na área de saúde, o grupo de Ótica da USP vem patenteando novos inventos. "Muitos são licenciados por fábricas de todo o país, como o ´Curador de Resina a LED`, cuja produção já chega a 6.000 aparelhos", destaca o professor titular de física da USP Vanderlei Salvador Bagnato. Desenvolvido na tese de doutorado de Cristina Kuroshi, aluna de Engenharia de Materiais, o aparelho usa um LED (sigla em inglês para Diodo Emissor de Luz) que emite luz azul para o endurecimento de resinas nas restaurações dos dentes, as populares obturações. O LED, com milhares de horas de vida útil, substitui a luz halogênica, mais cara e com vida mais curta.
Autor: Estanislau de Freitas, site: www.universia.com.br
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